A perspectiva de uma flecha
17/05/2013
Os cavalos estão à frente. As espadas e os escudos se chocam num segundo que me faz tremer. A luz procura um caminho entre as árvores e ilumina o encontro. Os bárbaros estão aqui. Eles tem olhos imensos, raivosos, quase vermelhos. Estão manchados pelo medo talvez. O medo. A cavalaria segue e os flancos são ocupados. Não posso me mover agora. Espero o vento.
A flecha está no alvo mas prendo a respiração por mais tempo. Minha vítima ainda se move.
Embaixo estão os miseráveis que correm como loucos. Há fogo por todos os lados. Ouço os gritos do general: avancem! Avancem!
Chegam as catapultas. Tenho os braços ainda levantados, as mãos firmes, mas o olhar que divaga. As primerias bolas de fogo são lançadas e passam muito próximas. Tem o zumbido da morte. Ardem como o inferno no inimigo. E não me canso de vê-los gritar de dor.
Há duas lâminas agora no centro. Estamos ao sul e temos visão periférica. As catapultas avançam mais e a infantaria abre caminho. As duas lâminas ainda trocam golpes. São dois grandes. Quando dois grandes se encontram, embaçam os menores assassinos. Alardeiam, com seu atrito, que há uma verdadeira batalha. São como gigantes, são como pilares e pedras. E ali está o coração dos menores. A agonia, a degola. O fraco renasce em frente ao espelho dos titãs.
Um circulo se forma. Os soldados simulam uma luta sem definição para poder observar aquelas duas montanhas que se movem, se abaixam e se contorcem a revelia dos machados e das maças. Os escudos se quebram, o sangue jorra. E ao lado está a miséria, a pusilânimidade, a pequenez que observa.
As torres param por alguns segundos e uma delas desaba. Não é só uma existência que se esvai, mas toda uma esperança que se rompe. E a vingança incendeia a coragem. Os pequeninos avançam rangindo os dentes, sedentos, inconsoláveis. As duas ondas se encontram onde antes havia espaço para dois grandes. O circulo se fecha e recomeça o massacre.
A cavalaria deixou os flancos e retoma caminho pelo centro, debelando os derradeiros bábaros que procuram esconder-se entre os mortos.
Agora tenho-o neste instante eternamente esperado. Tenho-o completamente imóvel. Parece respirar com dificuldade. Seu peito está aberto. O corajoso e tenebroso está apenas ali, esperando que termine. Não tenho compaixão, deixo minha mão se abrir enquanto o arco se inclina para frente. A flecha cruza o campo de batalha, observando-o desde um ângulo privilegiado. Esta flecha é uma nação. Não é um homem. Eu abri minha mão para que as mãos de tantos outros possam balançar as crianças para que elas durmam. Eu abri minha mão para que outras mãos possam se formar.
Um herói de classe
12/04/2013
Valdir, contrariando todas as expectativas, foi o funcionário do mês por três vezes consecutivas. O sorriso no quadro, o nome e aquele olhar embriagado de humildade. Uniforme completamente liso, branco, alinhado.
Antes estava tudo borrado. Manchado. A gola amarrotada, a gravata desleixada e um olhar de peixe morto, embriagado de cachaça e soberba. Paciência. O gerente recomendava: vai tomar banho, joga essa roupa fora, compre uma gravata decente…
Transformação foi o que aconteceu. Como quem bebe um gole de resolução. Despistou o senhorio e caiu nas ruas. Dinheiro bem gasto. O aluguel é a menor das preocupações. O alfaiate o declarou: convicto, sereno. O traje consumado, faltava-lhe os cabelos, já castigados pelo tempo. O barbeiro levou quase uma hora para reparar o estrago, mas ao final o esforço foi recompensado. O homem estava brilhando.
No dia em que foi eleito pela terceira vez chorou. Os olhos fitos nos colegas de trabalho e as mãos trêmulas o denunciavam. Um momento de emoção. Deram-lhe cinco minutos para agradecer. Falou dos pais que não conhecia e de seu abandono quando recém-nascido. Agradeceu a Deus, persignando-se. E disse aos companheiros: “permitam-me dizer que agora leio. Sim amigos. Tudo aconteceu de repente. Eu ganhei alguns livros velhos e tentei esquecê-los, mas um dia, quando não tinha mais nada para fazer, acabei lendo alguns deles”.
Todos no restaurante ficaram boquiabertos. Ninguém poderia imaginar que tudo aquilo era leitura. Pura e simples. E aos poucos Valdir foi emprestando e ensinado seu método. Foi uma época de ouro. Até o proprietário do local, Seu Getúlio, com seus setenta anos, entrou no clube de leitura. Todos pareciam amadurecer e, é claro, alguns passaram a delirar um pouco. Mas o saldo foi positivo.
Os jornalistas que frequentavam o local, muito surpresos com a reviravolta na vida daquele homem simples que sempre os cumprimentava timidamente e as observações culturais e filosóficas que agora fazia, pediram-lhe que concedesse uma entrevista para explicar como e onde havia aprendido tanto. Publicada no jornal, a entrevista alçou Valdir à celebridade. O quadro de funcionário do mês passou a ser apenas um detalhe. Todos queriam jantar e ouvir as opniões do garçom-intelectual. Um fenômeno surgiu em meio à panelas e bandejas. Enquanto as prateleiras e as estantes do seu apartamento ficavam repletas de livros, o garçom tornava-se sócio do restaurante onde começou a trabalhar com vinte e seis anos. Apresentava aos sábados, numa espécie de palco e balcão improvisados num canto do restaurante, uma crônica sobre as notícias daquela semana, atraindo cada vez mais pessoas.
Valdir passou a ser modelo de inteligência, liderança e humildade para todos aqueles que conviveram com ele e o acompanharam durante este imenso salto. E para clientes e jornalistas, exemplo de sucesso. Exemplo de heroísmo: um garçom que saiu da pobreza, da simplicidade, e agora está no jornal, dono de restaurante e proeminente intelectual.
Os problemas surgiram quando o convidaram para um programa de TV. Sentado numa poltrona cinza respondeu a seguinte pergunta: “o que o motivou a fazer tudo isto? Melhorar de vida? Ganhar mais dinheiro?” – com a seguinte resposta: “tenho uma necessidade imensa de saber”. Simples assim. Inconformado, seu entrevistador ainda esboçou algumas outras perguntas para tentar arrancar-lhe a confissão de que fazia tudo aquilo por dinheiro, mas não foi bem sucedido. Terminou a entrevista voltando-se para a câmera e, triunfalmente, comentou: “conversamos aqui com Valdir, um homem simples que se transformou em um empresário de sucesso!”. E aqui e ali, mais alguns tijolos foram colocados para construir o heroísmo do nosso herói.
Sem sossego, Valdir comprou uma casa na serra. Construiu uma biblioteca que também servia de escritório, de frente para um pequeno lago. Descia apenas uma vez por semana para apresentar seu “pequeno comentário às notícias da semana”. Mas a fadiga por ter que lidar com toda espécie de perguntas desinteressantes e conversas superficiais o alcançava.
A história tem uma curva interessante. Concentrado em sua mesa de leitura, janelas escancaradas, percebeu que havia um ruído. Relutou mas acabou sorrateiramente espiando através do jardim. Sem poder ainda definir o que estava ocorrendo foi até o portão. A casa em frente estava em festa. Luzes, pessoas conversando e uma música que começou a aumentar de volume conforme Valdir prestava mais anteção. Pertubou-se. Fechou as janelas, despertou Mozart e pôs-se na poltrona de leitura. O telefone tocou. O sócio pedia-lhe conselhos. Problemas, problemas. A responsabilidade aumentava e nosso herói não conseguia mais equacionar a vida de estudos com a vida empresarial. Abandonou a última assim que foi convidado a colaborar com o jornal da cidade. Deixou os amigos é verdade, mas sem amargura; sem uma despedida calorosa, sem abraços ou discursos também.
A vida mais solitária e silenciosa o tornou mais produtivo. Escrevia com mais profundidade. A imaginação explorada, vivida, meditada. Recebeu mais convites. Colunas de opinião, culturais, políticas; colaborava agora em algumas revistas, além dos jornais. Entretanto amigos são sempre bem-vindos para uma conversa; uma pausa nas reflexões; desligam-se os computadores, as televisões; e o mordomo vem servir whisky a todos. Mas para alguns amigos a distância seria mais saudável.
João Pedro era um garçom, amigo de longa data. Jovem e reto. O jantar foi servido aos dois. Valdir esperava ansioso para conversar. Deixaram a sala e foram à biblioteca. A esta altura imaginou que seu companheiro, um dos seus melhores alunos, já deveria ter lido e aprendido muita coisa. Que prazer seria conversar! Entretanto, João era um dos que delirava. Ao contrário do que se esperava, passou à ativista ao invés de estudioso ou cientista. Preferia o calor da massa; advogava a virtude do novo por ser novo, “o rompimento com o passado, o abraço da novo!” – dizia.
Valdir fechou as portas depois de um curto diálogo onde foi convidado a participar da chamada “Primavera dos Garçons”. Tudo já estava organizado para que a classe comparecesse em frente ao Ministério Público, com bandejas em punho, fazendo barulho e pedindo mudanças na legislação. Três mudanças foram propostas: todos os garçons ganhariam o chamado “bolsa bandeja”, para alimentar suas famílias necessitadas. A segunda proposta aumentava de dez para vinte porcento a taxa de serviço e a tornava obrigatória. E por fim, mas não por menos, o intitulado PAA – Programa de Aceleração do Atendimento. No PAA os donos de restaurantes seriam obrigados a contratar a quantidade correta de garçons por cliente, determinada numa planilha, levando em consideração a quantidade de clientes, mesas e tamanho do estabelecimento. E claro, se não o fizessem estariam sujeitos à multa.
Com um representante agora no jornal, um indivíduo que viveu na pele as dores e os desprazeres de ser um garçom, não seria difícil aprovar as propostas. João Pedro estava certo do apoio de Valdir. Já havia confirmado entrevistas, fomentado a agitação dos reivindicadores e alimentado a sua própria consciência de que, com a inteligência e cultura do amigo, o céu seria o limite.
A tempestade do dia seguinte prestou um imenso favor a Valdir. Não saiu de casa. Os encontros foram desmarcados mas o protesto foi apenas adiado para a outra semana. “Tenho mais uma semana para pensar” – refletiu.
A casa da serra, apesar da sua distância, já tinha sua privacidade violada. De tempos em tempos havia um repórter no portão, procurando a opinião do garçom. Não se contentavam em lê-lo ou ouvi-lo. Em meio aos sentimentos de mudança e de tristeza por deixar a biblioteca recém-construída, Valdir deparou-se com mais uma reflexão: acabo de deixar a minha classe. Mas o que era uma classe? E aquela coisa que sempre escutou na escola sobre ricos e pobres? Deveriam eles trocar de lugar a todo momento ou permanecer intocáveis? Sempre pobres e sempre ricos. Qual é a verdadeira base para se julgar a chamada mobilidade social? O sabor da descoberta era um tanto amargo. Levou as mãos ao rosto e disse em voz alta: mas agora pertenço a elite, e o que é isso?
Três dias se passaram e João Pedro o telefonou duas vezes. Valdir gaguejava ao telefone. Desde a época do restaurante, as primeiras leituras, o objetivo traçado de se instruir e crescer. E agora com medo de pisar fora de casa. De tomar parte em algo que não tinha certeza. Como saber se os gaçons realmente merecem isto? Todos os trabalhadores não merecem isto? Que reivindicações absurdas são essas? Serviu mesas com seriedade. Depois que a resolução foi tomada, ainda mais. Era elogiado pelo trabalho, pela eficiência, pelo talento diriam alguns.
Tomou a decisão de surpreender João Pedro. Na véspera da manifestação telefonou e contou-lhe tudo. O rapaz ouviu calado. O silêncio do interlocutor não foi novidade para Valdir, pois apresentou fortes argumentos pessoais e sensatos para não participar do evento. Ao terminar seu monólogo foi retrucado: “eu não posso acreditar, você não percebe que nós iremos presidir as comissões? Vamos liderar todos! Depois poderemos mais, não vê? Precisamos melhorar a vida dos nossos irmãos trabalhadores. No futuro podemos fundar um partido, imagine…”. No mesmo instante a memória o arrebatou com o cenário: quando iniciara no restaurante, Pedro já trabalhava lá. Na função de maître estava Rubens, um getleman, um “Lord inglês”. Possuía cultura, idiomas e postura. Valdir o tinha em máxima consideração, ainda quando chegava em trapos, depois de passar a madrugada bebendo. Quantas não foram as vezes em que Rubens, o Lord, carregou-o até o vestiário. Ao lado do gerente, Elias e do Seu Getúlio, aquele homem de fina estirpe sempre estava disposto a dar-lhe atenção, sem julgar-lhe as atitudes. E certo dia houve um mal entendido qualquer com um cliente. E Valdir percebeu a malícia de João que, ao apontar o problema antes a Elias, quis fazer-se superior, mais atento, mais eficiente. Apontava erros na conduta com o cliente por parte do maître. Mais tarde concluiu-se que queria apenas se mostrar, aparecer.
Os cenários multiplicaram-se. Passados e futuros, pois Valdir começou a projetar a personalidade do amigo após a manifestação. “Vai agarra-se a glória” – pensou. João ainda falou por alguns minutos enquanto todas essas perspectivas combinavam-se. Conseguiu desligar após marcar um encontro para o mesmo dia, na casa da serra.
Encostou-se na estante com os braços cruzados. “Se João pensa que vai me corromper com cargos e glórias está enganado. Que quer ele então? Quando obtiver tudo o que quer, o que irá fazer? O que vai pensar? Se somos ignorantes, imaginamos que tudo é contra nós. Os detentores do conhecimento, do poder, estão a escravizar a todos. Caminhamos numa trilha demarcada, numa estrada que só eles sabem onde vai chegar. E se é assim e sabemos, por que não tentamos também aprender? Conhecer! Não é possível que João não perceba isso.”
A governanta vem avisar que João Pedro se encontra na sala. Valdir toma o ar profundamente e desce. Há muitas coisas a dizer.
- O que pretende? – pergunta imediatamente o anfitrião ao deixar o último degrau da escada.
- O que pretendo? Pretendo ajudar! Ora!
- Sabe como se formam os líderes? Sabe como são as relações de poder?
Pedro está coagido. Arregala os olhos e tenta raciocinar o mais rápido possível. Responde:
- O que quer dizer com isso? Você continua a arrogar-se mestre! Não entendo Valdir. Um homem como você, um bêbado…
- Pois não se sinta ameaçado por um bêbado. Tranquilize-se. Quero saber o que quer realmente, para poder ajudar. Sente-se.
A idéia de que poderia remover os ideais de João Pedro passou pela cabeça de Valdir como um raio. “Vamos ver o quanto estão estas idéias enraizadas e que razões existem para que ele pense assim”. Um relâmpago.
- Vamos! Fale… e se precisar de referências basta acessá-las, a biblioteca é sua. Do que você precisa? – apontou as estantes e sentou-se na cadeira do escritório, atrás da bela mesa projetada sob medida.
- Valdir, entenda. Precisamos agir! Você sabe disso. Quantos não são os homens e mulheres que desejam uma vida melhor!
- Que lutem por ela! Não fizemos isso? – passaram-se alguns segundos – responda-me Pedro!
- Sim, mas nós tivemos a oportunidade!
- Do que você está falando? Eu sou um bêbado, lembra-se? Getúlio foi um homem muito bondoso. Outro provavelmente teria me posto para fora. Atirar-me às ruas era o mais sensato. Um homem inútil como eu fui.
- Sim, Getúlio, um empresário. Alguém com poder!
- Alguém com algum poder e caridade, não esqueça.
- Mas quantos Getúlios não precisamos para trazer mais pessoas para a claridade, para a luz? Somos mais do que um Getúlio empresário. Somos líderes!
- Veja Pedro, como você pretende ajudar a nossa classe de garçons criando problemas para o próprio Getúlio? Podemos tentar mostrar para outras pessoas como é bom ajudar os outros, podemos dizer: isto é fazer bem a alguém. Não podemos criar proteções artificiais para este ou aquele grupo.
- Mas como faremos isto?
- Meu amigo Pedro, é difícil formular uma solução. Não posso pegar uma folha em branco, escrever dez, vinte ou trinta tópicos para que você os siga. Isto não é o tipo de coisa que vai ser fácil.
- Não coloque obstáculos, eu conquistei inúmeros irmãos para nossa causa. Eu fui a campo conversar com eles, entender as suas dificuldades. Você sabe que procuro fazer o melhor. E podemos fazer neste momento.
- Você não conquistou ninguém. Você ofereceu um benefício sem esforço. Quem não quer? Quem não quer ver os exploradores pagando seus pecados e os explorados pisando-lhes o rosto erguendo o punho em menção vitoriosa?
- Você vive num mundo inerte. Conservando as coisas mais tediosas… lá fora há pessoas de carne e osso…
- O melhor jeito de ajudá-las, eu já disse, é mostrar o que é realmente bom. O que é o bem. E cada um, sabendo disso, vai procurar, ou antes, deve procurar fazer o que é melhor.
- Vejo que aqui não vou conseguir nada. Você protege o status quo. Por isso as suas opiniões são muito divulgadas e as pessoas adoram ler as suas colunas. Você mantém este poder que está aí! As pessoas querem mudar e nós podemos liderar esta mudança.
- Mudança, esta palavra mágica. Revolução. Romper! – Valdir se levantou e caminhando devagar continuou – Sabe do que me chamam? Me chamam de herói. Herói! Como pode aquele homem estragado, dilacerado, com defeito, imoral até, tornar-se um nobre? Comemoram o pobre porque ele não é mais pobre! É a luta eterna do pobre. Da alma pobre. Eu sou pobre, mas sou “da elite” também. Como posso ser as duas coisas? E se meu passado não tivesse sido obscuro? É por isso que as pessoas me escolhem e se surpreendem com as minhas opiniões. Estão começando a dizer que sou um herói corrompido. Se a sua origem é humilde e você aprende e estuda, você é um herói que se esforçou além dos limites humanos. Ora! Eu tive oportunidade vão dizer! Oportunidade, esta segunda palavra mágica. Dar uma oportunidade é dar o mundo. A oportunidade é sinônimo de aproveitamento. E quantos não tiveram “a oportunidade”? Alguns não satisfeitos em dar só “a oportunidade”, também dão todo resto. Os méritos igualitários. Estudar e não estudar são a mesma coisa. Saber e não saber são a mesma coisa.
- Estou cansado Valdir. Somos privilegiados e você não entende isso. Precisamos defender estas pessoas que tanto suor derramam por seus familiares.
- Eu também estou cansado Pedro. Cansado da preguiça alheia. Cansado de ver os insatisfeitos não moverem uma palha por si mesmos e exigirem a retratação de terceiros. Quem vai fazer pelo povo? O povo está perdendo a capacidade. Colocaram na mente do povo que eles merecem as coisas sem esforço. Uma espécie de merecimento divino. É exatamente o que você promete.
Os dois ainda conversaram mais alguns minutos. Pedro deixou Valdir no portão, afastando-se lentamente até o carro. Uma torrente de pensamentos arrebatou o nosso herói em declínio. Recolheu-se.
Daquele dia em diante o jantar ia ao escritório. De manhã um passeio no jardim. Depois, sentando sob o caramanchão, deliciava-se com leituras anglo-saxônicas. À tarde trancava-se com os livros mas ressonava na poltrona de couro. E o desafio da verdade vinha tocar-lhe os sonhos e o acordava. Num salto embaçado, esbarrando no abajur e caminhando levianamente tomava o caminho do quarto. Água quente e um banho confortável. De volta ao escritório redigia cartas imensas à posteridade e ditava para um gravador teses metafísicas.
Ao cair da noite, diante de um acidente operacional, um dos empregados esqueceu o televisor ligado e Valdir, ao passar pela sala e recorrer ao bar para uma taça de vinho, ouviu um repórter entrevistar um homem que se apresentava como líder dos garçons da cidade. Viu pedro debaixo de chuva, ao lado do repórter, erguer um cartaz que dizia: chega de exploração, gorjeta obrigatória ao garçom.
Valdir deu meia volta, recolheu a taça, parou, voltou, recolheu a garrafa, desligou a televisão e anunciou ao mordomo:
- Vamos nos mudar Jonas! Preciso de águas mornas e transparentes. O que acha de Cancún?
Piratas da existência
13/03/2013
Perna Podre era um pirata um tanto indecente. Enquanto lavava o convés entoava cantigas navais monstruosas. Tinha cordões de dente de tubarão e pulseiras de ossos de baleia. Um impecável chapéu enfiado na cabeça com penduricalhos dos mais diversos, coloridos e brilhantes, de todas as partes do mundo, derramando sobre os ombros uma cabeleira luminosa. O cinto de couro desbotado com um punhal adornava-lhe as cadeiras estreitas e desengonçadas. E quando caminhava, a perna podre do Perna Podre reclamava. Depois de dar uns tapas no joelho desrotulado e esbravejar palavrões do fundo do mar, a perna voltava a dar uns passos. “Carniça!” era como chama aquele membro inferior que lhe trazia problemas físicos mas reflexões metafísicas.
Atracamos no porto de Almas Insensíveis e fomos ao cabaré, pois era exatamente este lugar o predileto de Perna Podre. A tripulação suja e fedida entrou como uma turba sedenta e feroz, derrubando móveis e batendo com os ganchos no balcão. Pérola, uma linda jovem e singela camponesa, fazia as honras do outro lado do balcão, despachando as bebidas mais amargas que podia encontrar. Cada marinheiro tomou uma dama no salão e dançou, reverberando o som das pernas de pau, das batidas das conchas e ossos e dentes, das vozes roucas e baforentas.
Durante a madrugada, do lado de fora do cabaré, ouvia-se os gritos de horror e êxtase que aquelas mesmas mulheres lançavam na noite. Dos seus aposentos, apavoradas e resignadas pela sua própria profissão, presenciavam o desfecho daquele dia de festa. O sangue, o vômito e o desleixo daqueles homens ásperos seriam tolerados e até amados. Lágrimas, risos e socos. Vinho e amor.
Quando a janela entreaberta deixou escapar um pequeno faixo de luz, nosso capitão se levantou. Papel Amassado conhece Almas Insensíveis e sabe que não há esperança. Anda pelo corredor batendo a bengala nas portas e acordando toda a tripulação. Enquanto as mulheres desaparecem como um nevoeiro que rapidamente se dissipa, um pó que retorna ao pó, um sonho que chega ao fim, os homens atravessam a Praça da Desilusão e dirigem-se ao cais.
Papel Amassado tem na sua magreza um aspecto maleável, mas um gênio duro como ferro. “Levantar âncora! Vamos seus bastardos imundos!” – brada nosso capitão. Puxamos, empurramos, amarramos e soltamos. A estibordo e a bombordo. Estamos orgulhosos e tristes; cabisbaixos mas conformados. Todos os aniversários são assim. Não foi diferente com Perna Podre. E onde está ele agora? Os aniversariantes ficam em Almas Insensíveis para retornar depois, não se sabe de onde, para a Ilha da Inexistência, um lugar em que só podemos passar uma vez por ano, exatamente as cinco da manhã, para resgatar nosso marujo. E porque isso acontece é um mistério.
Perna Podre deixa essa existência e passa a não ser. E nos remete a elucubração, a conspiração, a imaginação. Deixa-nos, assim como os outros aniversariantes, curiosos, pois perdem a capacidade de falar quando retornam. São como homens sábios. Descem do convés e ficam enfurnados nos livros, envelhecendo rapidamente. Quando conseguimos falar com eles é por escrito. Deixam seus ensinamentos em livros chamados de “Revelação” destinados aos mais jovens que devem aprender sobre o fim. Aprender que nem os piratas mais bravos e selvagens devem depositar toda sua esperança nesta existência. Aquelas letras nos explicam como uma parte de nós já é perene. E nos ensina também a fazer memória disto.
Espero retornar para continuar esta história, pois aproxima-se o meu aniversário.
A noite dos anjos
15/02/2013
As horas passam com leviandade. Troco a estação do rádio uma dezena de vezes. Tenho o telefone que não toca de um lado e uma escrivaninha do outro. Uma mesa que me chama a trabalhar e da qual invejo a solidez ontológica. A noite cai e me atravessa, desampara. A solidão se deflagra e vem crescendo conforme os segundos se vão.
Uma nova música, o locutor da rádio assinala o autor, despede-se. Vai dar boa noite aos colegas enquanto não podemos ouvi-lo. Terá um humor de madrugada? Daqueles que estão acordados o tempo inteiro? A sobriedade destes me deixa enojado. Calculo a insônia.
Estou pronto, coloco a roupa e tomo o elevador. O porteiro me conhece e faz um aceno, sabe que vou demorar cerca de meia hora. Está sob o efeito da vizinha, que tem uma vida sexual muito ativa no primeiro andar e deixa o turno da noite envergonhado. No fundo talvez saiba disso e tenha certo fetiche em deixá-los corados. Quando sai pela manhã para trabalhar os homens olham para baixo, com um pudor que qualquer discípulo da revolução sexual ficaria chocado. Não é jovem, tem um aspecto contraditório de felicidade forçada.
Atravesso a rua e entro num café. Adam me conhece e tem um belo capuccino para me servir. Ao longo do balcão somos três. Uma mulher e um homem, afastados, permanecem petrificados na imagem. Estão como que congelados. Que esperam?
Retiro as luvas e levanto a xícara, enquanto a fumaça me faz fechar os olhos e o aroma do café inalo por inteiro. A quietação da alma vem chegando, a ternura do calor reaparece. Busco aliviar a solidão trocando algumas palavras com Adam. Aos poucos os outros vão se descongelando. O café aquece o espírito e depois de alguns minutos estamos todos a falar da noite que segue. Dos dias e das tardes insólitas que vivemos. “Sou cristão”, me diz o homem. A mulher o repara com suspeita. Até que ele retira do peito um escapulário. Adam também sabe o que é perene, tem a cruz do Cristo fincada na porta e no seu coração. Conheço-o de longa data. De noites longas e frias em que aqui nos reunimos a falar.
Sofia, a mulher, depois de alguma relutância nos diz que perdeu a fé. Sente-se abandonada depois de muitas tragédias familiares. Paulo, o homem do escapulário, tem o nome do apóstolo, do santo. Uma confiança que parece inabalável. Entretanto, fala envergonhado, despistando, se fazendo forte enquanto os olhos estão cheios de lágrimas. Testemunha alguns milagres na família. É o exemplo do contrário, é o cavalo que vai derrubar a mulher, é a luz. Procuro deixar que os dois conversem. Me retiro. Aperto as mãos de todos mas a de Adam por mais alguns segundos.
Meia hora depois tomo o elevador, depois de deixar o café e as torradas nas mãos do porteiro. No meio do caminho temo que a solidão do apartamento seja pior que a do saguão. Retorno ao térreo e me sento num sofá qualquer. João me pergunta quanto foi o café e os biscoitos e eu disfarço, como sempre. Posso ver a porta do Adam, do outro lado da rua, e quando o sol está querendo se mostrar, vejo Sofia e Paulo deixarem o lugar conversando. Mais a frente, numa demorada despedida, vejo-o entregar algo a ela. Retirou do seu pescoço. Penso que é o escapulário.
Finalmente estou de volta à cama. A solidão me abandona, o sol invade e enquanto os pássaros começam a sua festa, guiados pela luz, o sono se derrama. Durmo o sono dos anjos. Dos anjos da noite.
Cuidado com a filosofia
04/12/2012
Encontrei-me perdido entre a cafeteira e a filosofia. De certo não havia mais nenhum outro lugar confortável que eu pudesse ir. Organizei as notas na gaveta e escrevi uma carta à governanta. O leitor pode ficar curioso quanto à filosofia e isto, em si, é um bom sinal. Fui convocado, abandonei meu emprego e carreguei mulher, criança e bagagem para o interior. A casa agora é mais espaçosa e a filosofia esgueira-se pelos cantos. Mas decidimos colocá-la no quarto dos fundos, onde não assustasse as visitas. Quando morávamos na cidade e os amigos e parentes nos visitavam, era necessário esconder depressa a filosofia. Sem saber o risco que corriam, os visitantes se sentavam, bebiam e conversavam banalidades.
Um dia, numa pequena reunião para os amigos mais íntimos, a filosofia se soltou. Subiu nos móveis, pulou em cima do sofá e acabou bem no meio da sala. Foi terrível! Algumas pessoas ficaram estarrecidas. Cochichavam e reclamavam balançando os ombros. Foram embora sem experimentar a sobremesa.
Difícil é reverter a situação quando a filosofia escapa do quartinho. Quando a porta se abre e a deixa passar, geralmente só conseguimos contê-la com a ajuda de alguém que já a conhece. Foi exatamente o que aconteceu outro dia. Conversávamos no portão com o vizinho quando ela veio de mansinho. Encostou-se na grade e quis passar correndo pelo portão da garagem. Mas nosso vizinho, por obra da Divina Providência, também tinha uma filosofia – mais platônica, diga-se de passagem – e soube lidar bem com aquela situação. Disse-me que as filosofias eram assim mesmo, e que eu deveria ir ver como ele mantém a sua a salvo, no sótão.
Aceitei o convite depois de fazer o mesmo, ou seja, o convidei para ver o quartinho lá dos fundos. Entramos. Segui na frente levando a filosofia de volta ao seu lugar. Quando chegamos ao aposento ilustre, meu vizinho derreteu-se. Parabenizou-me. “É disso que precisamos!” – deu um tapa no meu ombro. Em verdade, nunca imaginei que meu vizinho também cultivasse uma filosofia, pois geralmente àqueles que o fazem são reclusos, quase eremitas, nos dias de hoje. Ou são artistas. Artistas no sentido pejorativo do termo. São malabaristas manetas que também possuem um só bastão. Arremessam o bastão e em seguida o pegam, como se isto fosse grande vantagem. Ou fosse inédito. São apenas exibicionistas sem coragem para cuspir fogo. Porém, Cleber, meu vizinho tinha outro perfil. Era o prefeito e possuía uma popularidade de dar inveja a qualquer governo assistencialista.
A esta altura, a minha filosofia – que é mais aristotélica, por assim dizer – já tinha conseguido fazer um cúmplice. Sem perceber a passagem do tempo, operávamos algo impensável: uma vez por semana nos sentávamos na varanda, cada um com a sua filosofia, a debater sobre os últimos e os primeiros acontecimentos.
A cafeteira dá seu sinal. Desperto e abro as janelas. Lá embaixo está Cleber acenando com um outro ao lado. Coloco o rosto entre as grades e ouço seu grito: “este aqui é Roberto, mais um meu jovem! Mais um coitado!”.
Me vesti rapidamente e desci. Aperto a mão do novo amigo e descubro que a sua filosofia – que é mais kantiana, talvez – o acompanha há muitos anos. Disse-me que sofreu muito durante seu exílio na universidade e prometeu não enviar seu filho ou aconselhar qualquer outro a seguir este caminho. E depois dos devidos preâmbulos, descubro que Roberto mora na primeira casa da rua, uma casa amarela. Pergunto como cuida da sua filosofia e qual o tipo de alimento que dá a ela. Me responde com tristeza que naquela casa de cinco quartos não há um só lugar para manter a filosofia e que estava construindo um novo quarto para tal fim.
Do mesmo modo que Roberto apareceu, mais tarde a vizinhança se contaminou. Não sei se foram as filosofias que, perambulado por aí, acabaram fazendo amizades ou inimizades. A verdade porém é que a varanda já não suportava mais o peso delas. Um mês depois nos mudamos para a casa amarela do Roberto, quando o quartinho ficou pronto, lá nos fundos do seu quintal. Bebemos algumas doses de whisky na inauguração e pregamos uma placa de madeira na porta, para alertar aos desavisados, “Cuidado com a filosofia!”.
O candidato Nulho
14/09/2012
O Nulho era assim, um cara meio sem jeito. Primeiro tentamos formar uma equipe para elegê-lo vereador, não deu certo. Nulho não tinha carisma, diziam alguns. Outros taxavam Nulho de bronco, grosseirão… e outras qualidades.
Apesar de tudo isso, estávamos em cada esquina, em cada sinal, no shopping, na favela. Espalhávamos os cartazes do Nulho por toda parte. A colagem dos cartazes era parte interessante da corrida eleitoral. Corrida literalmente, quando a polícia nos perseguia porque estávamos sujando a cidade. Alguns membros da nossa equipe estavam acima do peso, o que fazia com que tudo ficasse mais interessante. Acabavam sempre dormindo na delegacia e liberados no dia seguinte.
Nosso partido, o PUTZ!, foi autuado diversas vezes. Mas seguíamos firmes com o intuito de mudar a cultura política desse país. E foi exatamente ali, na sede do partido, que decidimos lançar o Nulho como candidato a prefeito. A votação foi unânime, três votos a favor do Nulho. Claro que nem todos compareceram a esta reunião, pois já havíamos mudado de sede uma centena de vezes por não pagarmos o aluguel. Coisa boba, dada a importância que o nosso partido tem no cenário nacional.
Entro em casa, após ter sido revistado pela polícia duas vezes na subida da comunidade. Reclamo. Nossa polícia não tem preparo, outro dia me levaram a pasta de dente. Hoje queriam que eu entregasse o autor do livro Confissões que encontraram na minha bolsa. Eu disse que Agostinho era um santo e que o livro fora escrito lá pelo século V. Não é fácil lidar todos os dias com essa gente ignorante. Me deito e fico imaginando qual é o próximo passo da campanha de Nulho. Amanhã teremos um encontro com o vice, Branco das Neves. Nosso vice tem uma plataforma excelente, escreveu todo seu planejamento num guardanapo de papel (frente e verso), durante a nossa cervejinha no Bar do Manquinho. Olho para os panfletos na escrivaninha, as bandeiras encostadas na cadeira. Durmo.
Nulho recebe um telefonema logo cedo. Reunião de emergência. Comparecemos ainda com cara de sono à nova sede do partido, debaixo de um viaduto. A julgar pelo número de participantes, as discussões serão acirradas. É bem verdade que os mendigos do local juntaram-se a nós. E parece que gostaram das nossas propostas. Valdemarzinho sobe no caixote e começa a falar sobre a nossa principal plataforma: a educação liberal nas escolas e universidades. De hoje em diante você vai ser doutor se quiser, se não quiser, pode ser porteiro! Os mendigos pularam de alegriam. Abraçaram-se. Valdemarzinho continuou: todas as individualidades serão respeitadas! – Descobrimos então que entre os mendigos havia dois advogados e um engenheiro que queriam ser taxistas. Valdemarzinho foi aplaudido. Não houve discussão e sim uma festa. Infelizmente Nulho não pôde comparecer, seu fusca furou o pneu na Av. Brasil e foi rebocado por uma charrete. Mas a campanha continuou e, após uma distribuição de pirulitos, o PUTZ! era o partido predileto de cinco em cada dez crianças de 8 a 12 anos.
Foram dois meses andando pela cidade, conversando com os moradores, distribuindo material de campanha e convertendo os corações à causa do PUTZ! e de Nulho. Tentei por diversas vezes encontrar com nosso candidato, tirar uma foto com ele ou mesmo escutar apenas sua voz. Não consegui, tamanha a sua popularidade. Escrevi num papel o seu nome, dobrei e coloquei na carteira, para andar sempre com o meu candidato!
E chega finalmente o dia das eleições. Esse dia maravilhoso. A cidade está toda enfeitada, as pessoas sorridentes caminham para suas zonas eleitorais. Me vesti de Nulho e saí. Na esquina me encontrei com Robertinho do Beco, nosso secretário de finanças, ele havia bebido um pouco, pois estava jogado na calçada e todo urinado. Mesmo assim me reconheceu quando foi pegar a garrafa de Caninha da Roça. Quis levantar para me abraçar mas não conseguiu. Agradeci e perguntei “você não vai votar? E a Lei Seca?”, ele me disse “votar? Em quem?”, resolvi esclarecer, “Nulho! Você vai votar no Nulho”. Então me pediu para que o lavasse à sua zona eleitoral. Tentei mas fomos pegos pela polícia no quarteirão seguinte. Mas nem por isso desisti. Conversei com os policiais, falei do partido, as intenções de Nulho, e como a polícia ficaria melhor, os investimentos, a luta. Depois de me darem duas cacetadas na costela me liberaram. Infelizmente Robertinho não ia votar, pois já estava sendo encaminhado ao hospital em coma. Tomei um ônibus e, muito animado, voltei para minha zona eleitoral. No trajeto, subiu no ônibus Armandinho, o Perna Torta, nosso secretário de relações internacionais. “E ai Armandinho? Vai votar?”, me respondeu “Não posso, estou indo para um churrasco de família, já estou atrasado!”. “Mas e o Nulho? O Nulho está contando com a gente!”. Armandinho disfarçou e descendo no ponto seguinte me disse: “Não se preocupe, vai dar tudo certo! Tenho que ir agora, preciso levar a cerveja! Um abraço!”. Tristeza. Caí numa profunda depressão quando o telefone tocou. Era Nulho! E me disse estas palavras: “Marcelinho, vote no Claudomiro do Posto! Não esqueça!”, tentei entender tudo aquilo, “Claudomiro do Posto? Mas e você Nulho? Eu vou votar em você!”, me respondeu, “Não faça isso! Nem minha mãe vai votar em mim. O Claudomiro é do CACETZ!, um partido novo e com idéias maravilhosas. E além disso, vou abastecer meu fusca de graça por um ano! Um grande abraço Marcelinho, fica com Deus!”.
Entrei na casinha de papelão para votar. Deprimido. Toda nossa organização. As reuniões e os momentos de alegria. E votei no Nulho. Na apuração uma coisa estranha aconteceu, Nulho recebeu dois votos. Quem pode ter votado nele? Pensei. E quando passei por debaixo do viaduto, um dos mendigos me reconheceu, e veio correndo gritando “É Nulho! É Nulho!”. Me sentei então no meio fio, retirei a carteira do bolso e peguei o papel onde estava o nome do meu candidato. Admirei por alguns minutos aquele magnífico nome. Quando o vento aumentou, soltei o papel que saiu rodopiando. Enfim as eleições terminaram. Me levantei e levei meu amigo mendigo para tomar um café no posto do Claudomiro, do outro lado da rua.
O ladrão de cartas
12/07/2012
Não desejava nada mais, apenas ler as cartas. Trabalhava ao meu lado, e quando eu me distraía, estava lá, abrindo mais uma. Alertei-o muitas vezes sobre o supervisor que já desconfiava. Mas posso afirmar que suas técnicas para selar as cartas novamente era original. Eficiente. O problema central é que, certa vez, ao passar em frente a saleta, o supervisor viu Euclídes lendo uma delas, quando deveria apenas arquivá-las no escaninho correto. Bastou isto para tornar-se eternamente suspeito. Requisitaram sua presença na diretoria, explicou-se, releu o contrato de trabalho e a cláusula de sigilo e por fim relevaram a sua falta.
Na parte da manhã eu ficava conferindo os selos e os pesos, enquanto Euclídes arquivava. À tarde era o contrário.
No dia em que Euclídes encontrou a carta de Débora para Paulo eu já sabia o que ia acontecer. Saltei da cadeira voando para cima dele. Tentou se esquivar mas não conseguiu, tomei a carta e a tranquei na gaveta. Reclamou o dia inteiro. Jurou que não abriria o envelope. Chorou. Eu disse que não confiava mais. Débora era uma bela mulher e Euclídes apaixonou-se no primeiro instante, ao vê-la entrar na agência com um pacote marrom nas mãos. Raramente nos encontrávamos fora da saleta, mas neste dia, pela Providência talvez, estávamos designados a comutar as encomendas maiores. Bastou um sorriso e alguns segundos de atenção para que meu amigo arquivasse aquele amor no escaninho do seu coração. Não piscou até que a Sra. Débora dobrasse a esquina e desaparecesse. Disse-me ainda aturdido:
- Você viu? Isto é que é mulher!
- Mulher casada – respondi.
- Casada? Como sabe?
- Ora! Não viu o anel?
- Mas é claro que vi, na mão direita. Noiva de fato.
- Deixa-me ver seus óculos – estendi as mãos – você está louco. Mão esquerda, casada.
- Eu tenho certeza que é mão direita, noiva. Vamos ver, ela vai retornar.
- E como sabe que ela retorna?
- Ora, conheço a história, o pai faleceu, a mãe já tem idade avançada. Herdará uma casa no Jardim Botânico. Não mais que dois dias retornará, pois pediram ao advogado que fizesse um inventário…
- O pior é que você lê e não esquece, que memória! Não vai esquecer quando for parar na rua. Eu já disse, é casada. O que há nas cartas sobre isso?
- Um tal de Paulo… não lembro o sobrenome. Não sei muito sobre ele. Duas cartas apenas. Ele enviou, ela respondeu. E este pacote de hoje. Porque ela enviaria um pacote a ele? São noivos, tudo bem, mas por que este pacote? Que tem nele? – abriu a porta da saleta das encomendas.
- Euclídes, vem o supervisor!
Andrade passou pelo corredor e nos cumprimentou. Euclídes largou a maçaneta dois segundos antes e voltou para perto das encomendas ainda não comutadas. Cada saleta representava uma área específica da cidade, devíamos colocar cada pacote no lugar certo. Mas Euclídes ainda estava curioso. Fez um pedido tocando-me os ombros.
- Eu vou entrar na saleta, se o supervisor aparecer você me dá um sinal?
- Está louco mesmo. Volte!
Euclídes abriu a porta da saleta, procurou, arrastou, afastou e encontrou numa prateleira a encomenda da Sra Débora. Com suas habilidades descolou os selos, rompeu um lacre e abriu. E para o desespero do meu amigo, havia na caixa uma quantidade enorme de convites de casamento. Brancos, com laços vermelhos, escrita dourada, uma verdadeira obra de arte. Entrei na saleta e olhei pra dentro do pacote.
- Que pena. Você estava certo, é noiva. – sorri.
- Meu Deus! Ela vai se casar! O que eu faço? – olhou para mim com um dos convites nas mãos.
- Que fazer? Esqueça.
Euclídes ficou deprimido por uns quinze dias. Quando a Sra Débora entrou na agência para assinar a papelada e receber o envelope do advogado não sabemos. Passamos todos esses dias na mesma função. Carimba, pesa, arquiva… Meu amigo não abriu uma carta sequer nestes dias, por isso percebi que aquela paixão era verdadeira. Sentamos para almoçar, peguei um café, e resolvi perguntar
- Ainda pensando nela? Esqueça. Você a viu uma única vez!
- Não posso simplesmente esquecer. Sei de parte da vida desta mulher! Não sabia que era tão bela até reconhecê-la, quando assinou o nome para deixar a caixa dos convites. Você bem sabe que conheço sua letra, sua assinatura. Mas não sabia que era tão bela…
- Euclídes, você está apaixonado pelas cartas! Não pela mulher!
- Bobagem, pelas cartas se conhece muito melhor as pessoas. Elas não tem vergonha, escrevem o que querem, sem pensar muito. Não precisam olhar nos olhos. Débora é uma grande mulher, eu a conheço! Perderei uma grande mulher! Suas cartas são sinceras, belas, um coração de ouro.
- Bom, meu conselho, esqueça.
Voltamos ao trabalho. Lá pelas três da tarde chegou mais um carregamento de cartas. Derramaram os envelopes na caçamba e começamos a classificá-los. De repente Euclídes saiu correndo com uma carta nas mãos e trancou-se no banheiro. Alguns minutos depois voltou com um olhar de irritação.
- Olhe! Veja você mesmo! – entregou-me a carta.
Comecei a ler. Ao final, Sra Débora assinava, com marcas de beijo e corações adornados.
- Casa e vai morar na europa. Digo mais uma vez, esqueça.
- Está certo, está certo. Como posso competir? Me parece que este Paulo tem fortuna. Um negócio de vinhos.
- Tudo bem… vamos voltar ao trabalho. Quem sabe o destino desta Sra Débora não é estar com o Sr. Paulo? Vamos, levante esta cabeça…
- Vamos.
Alguns dias depois Euclídes estava melhor. Soube disto quando abriu uma carta do Sr Ronaldo, o juíz. Despedia-se parece. Vai morar no sul. Grande homem.
Eu pretendia fazer com que meu amigo deixasse o vício, mas não nego que também me interessava em saber dos pormenores da cidade. Um mero apego ao emprego, talvez, ainda me fazia brigar com ele. Eu não tinha família para sustentar. Euclídies tinha a mãe, uma senhora muito lúcida mas que não podia caminhar sem apoiar-se em alguma coisa. Comprei uma bengala e a dei de presente no natal. Adorou. Beijou-me nas bochechas. Acho que por isso eu tentava proteger Euclídes de uma demissão. Quem ia sustentar Dona Aurora?
Lembro-me de uma vez, quando abriu uma carta da Sra Salete, dona do Hotel, que se correspondia com o dono da Farmácia, Seu Otávio. O mais curioso era que a Farmácia ficava quase ao lado do Hotel. D. Salete era uma viúva e Otávio um solteirão. Mas preferiam as cartas. Encontravam-se por elas. E Euclídes ficava lendo e relendo, imaginando D. Salete descendo as escadarias do hotel, num dia incomum, chegando à farmácia e declarando-se a Otávio. Na verdade meu amigo temia isto. Simplesmente porque não haveria mais cartas, nem romances, nem intrigas, nem suspense.
Euclídes vivia naquele mundo. Acompanhava as novelas e as personagens da cidade. Confesso que algumas cartas eram levadas. Algumas sumiam. Eu imagino Dona Aurora batendo na porta do quarto, querendo entrar, enquanto meu amigo, num salto, escondia as cartas embaixo do colchão. Imagino a tensão, a sensação de desespero e angústia quando o quarto devia ser arrumado. Cartas dentro do baú, nas estantes, atrás dos livros, no armário, entre as roupas.
Voltamos para agência numa tarde, depois de fazer um trabalho externo, carregando um caminhão. Naquele instante desembarcavam mais cartas. Entramos na sala da comutação e arquivamento. Aquela sala era a nossa interseção, ali eu tinha um pouco do mundo do Euclídes, e ele tinha um pouco do meu. A canaleta abriu e os envelopes foram despejados. Rapidamente começamos a classificação… aqui, ali, carimbo, peso. Até que Euclídes sorriu.
- Que foi? – parei por um instante.
- É divorciada.
- Quem? – franzi a testa.
- Sra Débora, Paulo a deixou.
- Mas…




